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Perpendicular ao chão eu estou
Alinhada ao sol do meio dia estou
Caminhando com braços pesados vou
Devo fazer algo, é algo que fazer vou
Voei em passos leves e lentos
Procurei olhar cada olhar por aí,
Mas nada muito interessante vi
Foi aí, irmãos, foi aí que me perdi
Sei lá, a vida era muito mais detalhes
Outro dia quando eu resolvi viver
Nas sutilezas em que eu pûs beleza
Mas aí se perdeu o belo, eu o perdi!
Deixei escapar pelos vãos dos dedos
Pelas falanges caminharam tão leves
As penugens da pureza que eu cultivei
Elas caíram leves, inertes - e morreram.
Ah! Pudera eu então voltar para as carnes
Antigas carnes que me fizeram só encher
Hoje elas me queimam, não elas por si
Mas eu as queimo por mim, de verdade...
Eu espero perder a peça que me faltava
Porque um ser completo é tão tedioso
E eu pareço estar me completando...
O vazio vai se enchendo, estou cheia.
Vejo eu pessoas completas como más
Más por se verem tão perfeitamente postas
E não o são. Somos todos horríveis, ora!
Falta-nos entre as costelas um outro coração
Sei lá, nas minhas veias hoje corre algo cinza
O azul da minha tristeza escureceu-se na poeira
A fumaça dessas massas mais horríveis sufocaram
Minhas palavras mais bonitas que ontem cessaram
Traz de volta aquele crepúsculo que me acalentava
O deleite da minha vida era a simplicidade do singelo
Há tanta coisa que me aflinge e que me devora
É tudo tanto, tanto quanto, o quanto sinto é o que falta
Como a chuva cai, eu caio rua abaixo,
Escorrego pela guia, vou pelas vias do esgoto
Junto-me às impurezas que outros impuros deixaram
É, eu me sinto reciclada às avessas...
Hoje um passarinho sentou sobre meu colo e me disse: vai e voa, some e foge, saia daqui!
Aqui não se anda
Mas se corre acelera
Não para ou aspira
Inspira no que já havia
O tempo no vento voando
Os apssos frenéticos soando
As calçadas salpicadas de sola
Um tec-tec de impressora humana
A corrida que não pára
Os velhos incapazes que não podem
Das janelas sobem baldes e descem
Nas valetas os restos se espremem
Fechou-se o tempo, escureceu
Choveu. Parou. Morreu.
Ouviram dos leitos berros de dor
Um ai, ui ácido de água dos céus
Acabou, acabou-se o mundo
Fecharam-se as portas
Trancaram-se as janelas
Eis as lágrimas corrosivas do céu
É um movimento controlado
A paranóia das antenas invisíveis
Massa controlada por antenas
Pessoas movidas por ondas, para quê?
Toda noite é um mantra da família
Do jantar, da comida, da televisão
Hoje nós desfaremos a rotina, irmãos
Iremos todos nós juntos cantar!
Cantemos todos juntos da chuva
Vamos, perfuremos nossas faces secas
Fingiremos do céu a chuva lágrimas nossas
Sim, molharemos nossa secura de sentimentos!
Vamos, vamos nos dar as mãos, sentir
O toque que perdemos por falta de tempo
Esse segurar de companhia, direção
Corremos, corremos agora todos à destruição
De poucos em poucos viemos, um em um
Dois em dois, três não vêm
De dezenas em dezenas, um, dois e três!
Nos jogamos nas valetas, lixo junto de burguês
--- E naquela noite a cidade se iluminou de paz
Não restou nada senão o suicídio coletivo e abrangente
Não sobrou nem um contador de histórias!
É onde a chuva não é passageira
Onde o sol não quer brilhar
É ali onde não quero estar
Lá não o tenho nem que eu queira
Nessas vias nebulosas e sombrias
Não vejo luz senão a que me guia
O brilho dos assombros, fantasia
As belezas das tristes fantasmagorias
Que posso eu fazer senão aguardar
O pontilhado das estrelas para refratar
A mensagem mais longínqua a chegar
Na forma de saudade capaz de me matar
Nas coisas mais bonitas
Moram as dores mais profundas
Que futuras hão de vir
Como um palpitar de um suspiro,
Esta ferida há de existir...
Volta para mim dessas fontes abundantes
O elixir dos sorrisos, das rimas exorbitantes
Finja que vai poder me enlouquecer
Faça de conta que não pode me esquecer
Eu juntei as minhas mãos numa prece
E pedi do que todo o fiel agradece
Quero ter-te de novo, meu sorriso
Desfazer caminhos das lágrimas todos lisos
Sofrem as borboletas e choram as margaridas
Hoje a noite as suas damas não exalam
Perfume algum se espalhará nestas ídas
e vindas e as luzes que vieram e se foram
Vou buscar de dentro do abismo
O piso onde meus pés possam pousar
Que estou cansda de voar sempre cheia
De solidão, de tristeza, de revolta
Volta para mim, luz que me acorda...
meu corpo dói, arde, quebra
as lágrimas cessam e voltam
caem e secam, vão ao chão
quem dera eu fosse forte
temer somente então a morte
não bastar-me na fraqueza
de ser frágil como sou
minhas cicatrizes e calos
são os gatos da minha pele
que eu rasgo, arranho, surto
porque de mim foge um ai
que dói e não pára jamais
deixo minha metade maior
sem saber direito como vou ver
morro antes da hora
sangro antes da punhalada
nasço antes da concepção
a ânsia do sofrimento
sufoca-me como forca
é castigo, é um meio
de fazer-me mais madura
e deixar de deixar de ser
seu silêncio me comove
me dissolve numa culpa que
infinita, corrói e entrelaça
todo meu interim, meu eu
seu não-sorriso é meu choro
porque por você eu sofro
e não custa nada o fazer
são as gentilezas do meu ser
vou, vou e vou voando
pelos horizontes mais infindos
onde o caminho é labirinto
que é onde me perco de você
deixo para trás tudo que fiz
tudo o que me deu e me trouxe
todas as pegadas, os cheiros,
os abraços, os amores, as palavras,
os presentes, as baladas, os versos
deixo tudo como o tempo poeira deixa voar
vai, a insensatez da minha face
é tão grande quanto a sua vontade
de ignorar o meu eu e crescer o seu
vai, deixa que flua transparente
e se disfarce tal incidente
na minh'alma que vai a perecer
fundindo, caindo, descongelando...
cada gota d'água formando um véu
e desaguando, chega ao oceano
se desfaz em onda, espuma, mar...
deixa, deixa o casulo ser de seda
a lagarta poder ser borboleta
e livre voar, cantar, dançar...
some, some da vista, pelas montanhas
finge que não tem mais as entranhas
porque nelas bate inquieto
o laço que o prende na terra quente
arranca, tranca com seis chaves
guarda cada elas nos seus olhos
porque neles só quem puder, achará
vai... e não volte, não volte nunca mais.
Acho saudade algo cômico
Porque eu só a sinto sem volta
Essa saudade deriva de nostalgia
Sentimento que só eu devo guardar
É algo ingrato que nasce
Não morre até não ser morta
Só cresce enquanto permanece
Não desfaz enquanto se lembra
Saudade, sentimento único
Que me quebra o orgulho
E me faz procurar em desertos
O gelo da ausência derretido
Sente-se como agulhada
Inquieta como coceira, picada
Dói como queimadura ou rasgo
Que pouco cicatriza no tempo
Não sei você, mas até o que
Um dia odiei, hoje perdoo e sinto
Como se pudesse ter feito diferente
Mas ter tomado o mesmo destino
Aqueles olhos, faces, sorrisos
Que ontem foram a mim costas
Hoje mais parecem ombros remexidos
Dizendo: "tanto faz, tanto fez..."
A curiosidade alheia me persegue
Aumenta-me essa minha distorção
Entre querer mostrar-me verdadeira
Ou aumentar-me por demonstração
Sei lá, minha felicidade é verdadeira
Mas como tudo, é passageira
E não tenho como fixá-la ao inimigo
Tenho provas, mas não as mantenho
É um tênue fio de acontecimentos
Que nos separaram antes de um jeito
Da forma que deveria então de ser
E já passou, passou e não ficou
Eu fujo pelas ruas antigas de piso
Cabisbaixa, disfarço a máscara arrogante
Mas pouco basta pelos passos ligeiros
Fugir antes de tudo se desmoronar
Não digo oi, não sorrio ou cumprimento
Essa saudade não justifica arrependimento
Passo reto e me desagrado
Porque de perto eu vejo: não me valhe
Por fim, a saudade que me pareceu
Pia de ser sentida e acompanhada
Mais é efêmera que as chuvas juninas
Só servem para de repente nos molhar
Os céus já haviam se enferrujado, como o metálico cinza não resistira
às peripécias humanas, ele se enferrujou e fez de seus gases cuprosos.
As águas daqueles céus corroíam as estátuas disformes, os monumentos
cubistas que o homem havia se enlouquecido o suficiente para compô-los.
Aquela cidade era comandada por um rítmo demente de semáforos, buzinas,
gritos, música, propaganda, choro, conversa, tiros, violência,
engrenagens e máquinas obsoletas - as quais haviam tomado lugar dos
arcaicos meliantes. O trânsito era áereo e terrestre, raras eram as
noites não interrompidas pelo grave ruído das turbinas de um avião. As
pessoas eram formigas, agrupavam-se umas em cima das outras em
arranha-céus que serviam-lhe como cápsulas de repouso pós-trabalho.
Trabalho escravo, corrompido e estimulado por uma mídia e publicidade
infalíveis, compulsivas, obssessivas, onipresentes.
Pois bem, alí
em meio aos milhares de pontinhos apressados, espremidos numa calçada
de não mais de 4 metros de largura, confeccionada em textura lisa,
porém granulada de lixo, em meio aos gritos eletrônicos e a iluminação
de milhares de outdoors e vitrines culpadas pela poluição sonoro-visual
daquelas ruas centrais, caminhava pacífico um homem quinze centímetros
abaixo do toldo há dois metros longe do chão. Os largos ombros
carregavam uma certa arrogância conforme bamboleavam para frente e para
trás, num caminhar ereto, sofisticado e maduro, suficiente para dar
àquele transeunte misturado à massa ao menos três anos acima dos vinte.
O blaser caía-lhe nas costas, enquanto o homem recostava o cotovelo no
tronco afinado após os ombros, onde apoiava a mão e a gola do blaser. A
camisa era tão negra quanto a peça fora do corpo, assim como as calças
e os sapatos bem-lustrados, a gravata, entretanto, era branca, tão
límpida como a pálida e doentia pele do jovem. Carregava na outra mão
uma certa maleta em formato curvilíneo, onde possivelmente estaria
guardando um violino, entretanto, abaixo desse mesmo braço, amassava-se
um tanto um delgado ramalhete de rosas vermelhas.
O ramalhete havia sido comprado para uma pessoa que considerava
especial, alguém que havia preservado por longos e tensos. Mas amava-a,
amava-a como o vento que balançava seus longos cabelos presos, lisos e
mortos em suas largas costas marcadas de quando em quando pelo
movimento da camisa. Demorou para chegar ao estacionamento subterrâneo
onde havia deixado o carro por algumas horas. Pagou a quantia exata e
teve o carro trazido pelo motorista dalí até o caixa, onde estava.
Adentrou o carro e tratou de ligar o rádio, após deixar o ramalhete e o
instrumento musical no banco ao lado. Ouvia melodias suaves compostas
por violinos, instrumentos de sopro, corda e piano. Era amante do
sutil. Os óculos escuros foram postos depois, quando alcançou um
semáforo de luz vermelha acesa. As portas do carro curvilíneo estavam
trancadas, assim como os vidros tão escuros quanto o veículo também
estava fechado. A música não exalava para o meio externo e nem o
barulho do trânsito invadia aquele ambiente tão íntimo. Tentava
lembrar-se agora, com as costas finalmente apoiadas num encosto
almofadado e confortável. Espreguiçava-se um pouco enquanto lembrava-se
do estúdio onde havia deixado uma partitura de própria composição,
depois de como fora difícil achar rosas bonitas nessa atualidade tão
podre.
Chegara finalmente em casa. O portão levantou-se automáticamente assim
que reconheceu o carro. Morava em um desses arranha-céus, porém
situava-se no pico de um deles, talvez o mais alto da cidade. O duplex
era composto por um andar cercado de vidros, enquanto a cobertura, era
parcialmente aberta, dando espaço para a piscina e a jacuzzi. Apesar
disso, passava a maior parte do tempo na ampla sala, de decoração
minimalista em preto e branco e alguns enfeites em cristal rubro.
Deixou o cartão do carro e o ramalhete numa baixa mesa central e o
blaser e o violino sobre o sofá, onde se jogou, enfim. Esticou o braço,
preguiçoso, até o telefone sobre uma pequena e triangular mesa
semi-transparente ao lado do sofá e discou um número qualquer. "Já
cheguei aqui." foram as únicas três palavras que ele disse à pessoa que
mais tarde estaria tocando o interfone e finalmente anunciando sua
presença pela campainha. Era uma mulher de meia-idade, de longos
cabelos castanhos, adornados em cachos grandes e quase simétricos. A
mulher era mais baixa, apesar de criar centímetros acima de sua
verdadeira altura com os sapatos de saltos altos e finos,
transparentes. A mulher atirou-se nos longos e firmes braços do homem e
apertou-se no peito dele, escondendo o rosto ali. Sentia seu cheiro, o
perfume que havia sempre usado, que era dele e não havia sido comprado
por ela. Talvez ela nunca tivesse tido bom gosto o suficiente para
tê-lo dado um perfume à altura do qual ele usaria.
_Senti saudades... - havia murmurado, apesar de ter deturpado a voz nos
tecidos sociais do homem, fazendo parecer sua voz um resmungo. O homem
entrelaçou os dedos nos cabelos penteados dela e tocou sua nuca,
regendo-a para cima, de forma que fizesse a mulher atingir sua vista
nos pálidos olhos amendoados dele. Ela sorriu, deixando os lábios
fracos e pesados, o que a fez boquiaberta ao encarar-lhe os lábios
masculinos, longos e não tão finos, mais pálidos que carne labial e
secos, recortados por suaves linhas.
O homem sorriu fracamente antes de suavizar o enlaçar da visitante que
tomava conta de alguns porta-retratos daquela mesma sala, uns bons que
protegiam fotos de ambos juntos. Fechara a porta e amansara as luzes
acopladas ao teto negro recortado. Desceu primeiro os três degraus da
entrada e oferecera à mulher a mão, como um cavalheiro a ajudar a dama
com suas longas vestimentas - entretanto, esta dama não se dispunha de
vestes longas. O vestido vermelho de cauda ondulada caía-lhe por entre
as pernas e rebolava conforme a mulher imitava o movimento,
esforçando-se em graça e elegância que seu ser feminino podia oferecer
a quem queria seduzir mais e mais. Desceu os degraus com a ajuda
masculina e sorriu senão para as costas do homem, que já se dirigia
para o mesmo sofá onde havia se recolhido quando chegara e onde havia
permanecido até a chegada dela. Entretanto, não se sentou: pegou de
cima da mesa o ramalhete de rosas e entregou-a. A mulher havia
reconhecido que por entre aquelas pétalas escarlate havia um envelope.
Ela se extasiou, afinal, por aquelas décadas, talvez o próprio século,
já era difícil ver ações tipicamente arcaicas como aquela. Havia
milhões de meios de comunicação, mas a carta havia sido substituída por
mensagens eletrônicas, basicamente.
_Fiz um pouco às pressas, perdoe-me qualquer deslize. - o homem
completou depois que a presenteada recolhera as flores. Imaginava que
qualquer palavra pedante fosse soar bela aqueles ouvidos femininos e
cheios de deleite dela. Sorriu de canto para si mesmo, amava aquela
mulher, mas a amava mais quando estava longe e aquilo era estranho.
Amava as saudades e nem sabia dizer se aquilo era mesmo saudade.
_Não se preocupe, sabe que gosto de tudo que escreve e faz. - ela
suspirou antes de começar a ler o escrito, mas lia com gosto e com
empolgação, deleitando-se com cada rima, cada verso, cada curva de sua
caligrafia. A cada palavra que ele usava para referir-se a pessoa dela,
sua vontade era de tocar o corpo do amado, abraçá-lo, desvendar mais
uma outra vez o que havia debaixo daqueles tecidos negros e sérios.
Corria os olhos pelas palavras que mais julgava importantes e captava
um mínimo da poesia que afinal, nem havia sido feita com tanto esmero
pelo homem. As mãos ávidas da mulher buscaram os masculinos maxilares
dele, responsáveis pelo formato de seu rosto ainda assim delicado e
trouxe-o para perto do seu próprio rosto. Beijou-o intensamente,
imaginando que seus movimentos o enfeitiçassem, ainda que os olhos do
amante jamais se fechassem durante o ato. Costumava fixá-los no rosto
dela, raras eram as vezes em que estes ficavam entreabertos, afinal,
achava o máximo do beijo poder ver a expressão do receptor. Enlaçava-a
agora, como não havia feito anteriormente e a trazia para perto de seu
corpo, percorria as mãos pelas macias e arrepiadas costas da mulher.
Iría dá-la mais uma noite especial, ainda que aquele dia não fosse
senão uma quinta-feira, um outro dia após o anterior que haviam se
visto.
A manhã nasceu após o despertar do homem. Acolhido em seu hobbie negro
de cetim de seda, ele dirigiu-se em passos felinos até a cozinha, onde
buscou instrumentos para a culinária matutina. Acendeu o fogo,
esquentou a água, fez o chá e o café. Torrou os pães, buscou o pote de
geléia na geladeira e aproveitou para pegar o jarro de leite. Preparara
a bandeja de desjejum para a amada com delicadeza e sensualidade,
enfeitando os pratos doces que havia preparado com pedaços de morango e
ervas. Levou a refeição à mulher que ainda estava curvada sobre os
lençóis de cetim preto, coberta por alguns poucos pedaços deles abaixo
de sua cintura. Fora acordada com um murmúrio que espalhara o calor que
fora completado por um beijo rápido em seu pescoço. O sorriso da mulher
surgiu em seus lábios com um rangido de sono, seguido de alongamentos
preguiçosos dos braços e pernas.
_Bom dia... - ela disse, ajeitando os travesseiros na cabeceira da cama
para poder encostar-se e receber a refeição que já previra.
Experimentou cada um dos pratos, mas não terminou de comer a maioria
deles, havia uma grande variedade alí - Você quer mais é que eu
engorde. - frases típicas faziam-lhe sorrir de canto, mas não rendiam
um elogio ou um mimo de consolação. Ele lhe dava às vezes alguns
pedaços de morango dos enfeites na boca, mas logo recolhia-se numa
poltrona, onde punha os óculos de aros grossos e retângulares sobre o
nariz levemente triangular em seu perfil e lia o jornal fresco. Gostava
de informar-se, como se um dia chegasse a ver uma manchete "Finalmente,
estamos chegando ao fim do mundo". Era pessimista, mas também era
realista e sabia que aqueles carros que não lhe alcançavam as janelas
iríam um dia acabar sendo sugados por um buraco-negro criado pelo
próprio homem e seus monstrinhos.
Saíra cedo de casa, arrumado como de costume: o blaser, a camisa, a
calça e os sapatos negros e a gravata branca. Naquele dia, novamente,
havia prendido o cabelo repicado, negro e liso que caía-lhe até quase
metade das costas - achava-o mais adequado assim, para o trabalho.
Deixava a mulher no escritório onde trabalhava e dirigia-se para um
outro alto prédio, onde deixava o carro na garagem subterrânea e pegava
o elevador privado para chegar ao topo do edifício, onde se situava a
sala do presidente daquela organização. Naquele dia iría ter de receber
alguns supostos interessados em ingressar naquela poderosa editora que
abrangia de livros comuns, de papel, a e-books e roteiros em geral.
Adentrando àquele grande prédio, funcionários apressavam-se para
realizar suas funções, e nada além disso.Fui até a recepcionista para
poder perguntar sobre as entrevistas de emprego, ao que ela
mecanicamente me respondeu para subir o elevador até o vigésimo
terceiro piso,onde eu me informaria melhor com um tal de 'Christian
Menken'.Foi quando eu parei pra pensar em quantos andares existia
aquele prédio.
Fui até o elevador onde mais quatro pessoas além de mim, uma delas uma
mulher muito jovem e bonita.Fui pressionar o botão do vigésimo terceiro
andar, quando um dos homens que estava mais próximo do painel perguntou
a que piso o 'senhor' gostaria de ir.Timidamente disse que iria ao
terceiro piso e ele então, pressionou-o para mim.
-Obrigado, senhor.-Olhei em volta, onde o meu olhar caiu sobre os dois
outros homens na larga cabine do elevador panorâmico, que possuia a
porta de metal e as demais paredes de um vidro espesso e
transparente.Os dois distintos e bem caracterizados em suas
vestimentas.Olhei para a minha própria:Uma calça preta, camisa preta,
gravata branca.
A mulher usava um vestido de linho, preto.Os olhos azul água destacados
em seus cabelos louro prateados presos em um elegante coque na
nuca.Olhava impassível para o metal da porta, eu desviei o olhar para o
vidro que estava a minha direita.A cada piso que o elevador avançava,
menos pessoas tinham por andar.Um dos homens saiu do elevador no
vigésimo andar e outro homem pedindo para descer entrou.A mulher e um
dos primeiros que estava desde que entrei desceram no mesmo andar que
eu, e logo a mulher adiantou-se para um homem, já com a idade avançada,
os cabelos grisalhos e um resquício de barba, para cumprimentá-lo.Ele
deu na mulher um beijo curto e estalado.
-Ele agendou muitas entrevistas para hoje, querido?-a mulher perguntou para ele, que respondeu 'Não muitas.'
-Com licença, senhores-disse, me dirigindo ao homem com a mulher.-Poderiam me informar onde encontro o senhor Christian Menken?
O homem disse que as entrevistas seriam no trigésimo andar, no corredor
à direita que levaria até a sala do presidente da editora que decidiu
fazer pessoalmente a entrevista dos novos empregados.
-Por que ele perderia o tempo dele fazendo entrevistas, Chris?Ele é
presidente, muitos daqui, até hoje nem sequer viram-no!-perguntou a
mulher, abraçando os braços de Christian.
-Para selecionar melhor quem faz parte da companhia.É um pouco
óbvio.Mas é claro que ele poderia deixar isso para outra pessoa fazer.
Voltei ao meu lugar no elevador, onde continuei sozinho com o 'homem do
painel', quando o segundo homem desceu ao vigésimo quinto piso.
O gel fixador que eu usei para deixar meu cabelo para trás parecia
agora escorrer na minha cabeça com o nervosismo.Eu iria falar
diretamente com o presidente da editora, isso não era algo grande para
apenas um empregado de um lugar onde provavelmente muitos pareciam
nunca nem sequer ter visto o presidente.
Atravessei o corredor, um caminhar lento.Olhei para a porta da sala.Uma
voz surgiu do lado da porta, onde tinha um interfone; mandando que eu
entrasse.
Após a notificação do interfone sendo feita por uma mulher
de aparentes sesseta anos, uma sala de paredes redondas pintadas de
vermelho, era contornada por estofados de couro preto e apoios
prateados de alumínio. Algumas mesas de vidro geométricas no centro,
interpostas entre si formavam o logotipo da editora em seu miolo, mais
escuro; acima destas peças arquitetônicas havia revistas, folders da
editora e também uma bandeja com alguns copos de cristal e uma jarra de
alumínio, provavelmente cheia de água em temperatura ambiente - o
material não apresentava gotas em sua superfície externa. A sala só não
seria completamente circundada pelos estofados, pois em frente a uma
enorme porta metálica e negra havia uma mesa retangular também feita de
vidro avermelhado e sustentação em mármore negra onde estava sentada,
numa cadeira tão presidencial quanto a que estaria por detrás daquelas
portas dígnas de uma fortaleza. Lá estava a senhora que estava a
apertar de quando em quando um botão acoplado à superfície de sua mesa,
anunciando mais um concorrente para os aproximadamente trinta que já
estavam lá à ansiosa espera da entrevista.
_Aproxime-se, por favor. - a elegantíssima senhora de cabelos já
esbranquiçados olhou para aquele que havia entrado mais recentemente e
estendeu a mão.
Ela segurou o indicador do rapaz e o colocou contra uma pequena
superfície que ocupava somente a primeira falange de seu dedo, ela
pressionou o objeto, e assim que terminou o serviço entregou-lhe um
pedaço de algodão para estancar o pequeno sangramento.
_Queira acomodar-se, senhor Heathell. Em breve será chamado. - e
ela ajeitou os óculos de grau acima do grande e tortuoso nariz.
Dedilhava o teclado após achar pelo DNA do rapaz sua ficha completa e a
mandava diretamente para o computador do chefe, o que se escondia em
suas costas. chamou os próximos dois que entraram na sala e fez o mesmo
pedido, com as mesmas palavras.
O tempo pareceu se estender até o fim do dia, mas na realidade
havia passado apenas meia hora.E assim foi caminhando para as 'meias
horas' seguintes, onde o rapaz da gravata branca absorto em seus
pensamentos fixava o olho na porta detrás do balcão onde a senhor
continuava o seu trabalho com os novos entrevistados que
chegavam.Apenas mais cinco candidatos chegaram.
O rapaz devaneava no que havia levado a concorrer pelo emprego, o que
estava em jogo.Se ele conseguisse, sua vida poderia realmente
mudar...mas será que apenas o diploma da faculdade que ele possuía
seria suficiente para participar de uma editora como aquela?Ele
absorvia-se em seus pensamentos, até o momento que a senhora o chamou
daquela forma uniforme.
As portas se abriram mais uma vez, entretanto, ainda não se podia
ver nem ao menos a silhueta daquele que se encontrava por de trás de
uma enorme mesa de mármore negra. Havia ainda uma outra porta de vidro
negro, automática, capaz de reconhecer a presença de qualquer pessoa
que caminhasse pelo menos dez passos, passos suficientes para separar a
vista daquele lugar da sala mais adiante. Os passos eram claramente
ouvidos pelo homem que se recostava em uma enorme poltrona de couro
branco, de encosto alto e acabado em alumínio reluzente, revolto em
curvas e detalhes retilíneos. Os longos e espessos braços da poltrona
acomodavam apenas um braço do presidente, onde ele apoiava o rosto
tedioso e cansado, onde ele dirigia a outra mão, a que segurava um
cigarro fino e comprido a queimar e exalar odor levemente mentoado,
algo que se assemelhava à cor verde-azulada da fumaça semi-transparente.
_Bem vindo, senhor Heathell... - a voz soou tão tediosa quanto os
delgados olhos amendoados do presidente. Ele ergueu a mão, a qual
pareceria naquelas horas uma das mãos mais estúpidas e agressivas, para
sinalizar ao novo candidato onde deveria se sentar: num simplório
banco, almofadado em negro, sem apoio, com rodas em seu pé
tetrafurcado. Havia escolhido aquele banco com significados próprios,
talvez fosse uma materialização do seu sadismo para com os candidatos e
clientes.
Desconfortável, ele se sentou desajeitado, ainda vislumbrado com
tudo aquilo que via.A visão das duas portas o transportou para a visão
do homem, como se ele fosse algo proibido e por isso estivesse
lacrado.Ou a simples expressão em seu rosto mostrava como provavelmente
ele nunca fora feliz em vida.
_Pois bem, senhor... - e ele deu mais uma olhada pestanosa para o
visor da fina tela do computador - Heathell... Alan Heathel, cursou
publicidade... Bom... Boa faculdade também, aliás. Então, o senhor
pretende aproveitar como o emprego que está querendo ocupar? - e ele
pegou uma caneta qualquer de um pote triangular branco. Apertou a ponta
da caneta, a qual teve a ponta acesa em uma tonalidade de uma luz
negra. Começou a escrever sobre uma superfície de vidro, a qual
transmitia seus escritos para o computador, em forma de letra de forma.
-Eu pretendo...bem, na verdade eu preciso arrumar um bom emprego
porque eu sou o primogênito e minha família tem dificuldades
financeiras.Foi por isso que eu me esforcei durante todos os anos de
colégio e faculdade.
Aquele homem inspirava algo familiar, parecia ser um déjà vu.
_Entendo... - a voz dele era cansativa, assim como ele estava
entediado, exausto. A palavra que soara por último de seus lábios,
umidecidos por um gole de água era tão irônica, fria e seca quanto seu
olhar por cima de dedos intercalados à sua vista. Suspirou, imaginando
se aquele rapaz iría ter mais alguma coisa para dizer, fazer mais
melodrama e não poupar sua curta paciência. - Convença-me de que devo
lhe dar esse emprego. - e ele arqueou uma das sobrancelhas, agora
largando a caneta sobre a mesa, com delicadeza. Apoiou os cotovelos
sobre a superfície plana e fria, entrelaçou os dedos e pôs as mãos em
frente à boca, escondendo parte de sua face. Os olhos permaneceram
frios e ameaçadores a encarar o rapaz, isolado na pequenês de suas
instalações naquela sala rodeada de elementos artísticos e
arquitetônicos. Fazia aquela pergunta por teste à mentalidade dos
candidatos, como seria sua conotação.
_Bem,como o senhor presidente mesmo disse...Eu fiz uma faculdade
de renome,então eu creio que eu esteja apto a trabalhar nesta editora.
- ele falou impassivel, olhando através daqueles olhos gelados e
entediados, beirando à irritação.Ele não iria irritá-lo mais.Quis sair
da sala naquele exato momento, não aguentava mais olhar para aquele
homem.
O presidente podia ver que o rapaz estava a se sentir
gradativamente desconfortável. Era interessante, porque a educação dele
o poupava de qualquer deslize. Sua voz era controlada, seus movimentos
eram controlados, mas seus olhos não podiam mentir. Aquele homem
entediado sabia ler aquele conjunto de íris e pupila, sabia ver somente
neles o que os candidatos poderiam estar pensando. Queria jogar, queria
brincar com aqueles que ele havia contratado. Havia feito tais
entrevistas de tal forma porque queria ter certeza de que estariam
sendo eficientes para com a editora, senão poria andróides programados
para analisar o DNA e o histórico de cada um deles, pô-los numa tabela
e escolher, por comparações e classificações, o melhor. Não, ele queria
testar o psicológico dos novos integrantes, queria algum trabalhador em
especial, para substituir aquela velha decrépita, a secretária mais à
frente. Não queria mais mulheres, mas ainda assim havia ouvido algumas
delas.
Nesses minutos pensativos em que ele se manteve a encarar o rapaz,
ficou em pleno silêncio, nada quebrava aquela ausência de barulhos
senão algumas gotas de chuva que começavam a estalar nas vidraças
transparentes por detrás do presidente. Não dava nenhuma ordem ao
rapaz, apenas o encarava sem verdadeiramente vê-lo.
Ele se levantou precisamente posto a sair.Quando a raiva por ter
sua chance preciosa e todos os anos de trabalho em vão, julgados como
se não fossem nada por aqueles olhos intransponíveis, aflorou-se nele a
indignação.
-Com quantos candidatos você ficou aí,sentado sem dizer nada?Voce não
parou um minuto sequer pra pensar em como sao qualificados!Até quando
vai ficar brincando com esses entrevistados como se fossem suas
marionetes,senhor presidente?! - percebendo o erro que cometeu,virou-se
de costar pronto a caminhar para a porta da saída para se retirar -Com
vossa licença...-ele murmurou, mais para si mesmo do que para o homem
sentado em seu trono de julgamento.
O arrogante presidente deixou-o ir, não o poupou, mas só após
aquelas raivosas palavras ele pôde enxergar que o rapaz usava as mesmas
vestes que ele, senão a ausência do blaser e toda a sua pompa, além de
ter reconhecido só aí as cores de seus olhos, azuis tão límpidos.
Quando deu as costas para ele, naquele ato tão revoltado, mediu os
ombros dele e viu-os menores que os próprios, realmente era um rapaz,
um garoto perto daquele altivo presidente; não era muito alto para lhe
dar maior formação corpórea adulta, mas os cabelos jogados para trás e
fixados com gel eram uma franca tentativa de amadurecimento dele.
Achava engraçado, achava talvez doce o jeito daquele rapaz ser tão
sincero num mundo tão mecanizado como aquele. Apesar daquela análise,
apenas deixou ele ir e recebeu mais um candidato. A chuva agora caía, o
céu estava tão enegrecido quanto o humordele.
Every single step means
A cloud of water in gas
Every our self-esteems
Falling down in tresspass
Wished I lived somewhere
Like here where you do
For this I should bear
The fortunes have you
The bugs, birds are here
Winds are the peace song
Wings are now myth's fear
You don't need them among
The sun and the moon light
Every single cloudy home
Stars could seem flight
As fireflies they come
Kingdom of numbness and peace
Let me enter and try to feel
As your angels I take a piece
To you let me fake I once blew
lençol velho
eu costumo não jogar
coisas fora enquanto
o tempo a passar
está, pelo tanto
que eu venho estimar
nostalgias e lembranças
que eu tento evitar
extermínio de esperanças
lençol velho rasgado
com bóias marinheiras
sempre fora apreciado
de linhas passageiras
é como a maçaneta que
abaixou-se pelo tempo
prateleira de estoque
próximas vêm sendo
não só cresci como
envelheci, continuei,
enfim, assim tomo,
dentro nada mudei
aquelas sapatilhas
bailarinas antiquadas
hoje estão apertadas
nem ainda tenho filhas
o que meu corpo fazia
hoje range com fadiga
tão distante aprazia
perto hoje eu maldiga
fatos são fatos
filhotes hoje gatos
cresci e me menti
lençol velho parti
é como se eu estivesse tentando engolir
uma colherada muito bem recheada
de cereais provindos duma colheita
de plantas sadias de horror e maleita
é como se eu estivesse para descobrir
que sentir o que sinto fosse uma seita
meus olhos ardem sabe-se lá o porquê
as palavras mais suaves transmitem medo
aprendi a deter o vento num cata-vento
porque é girando, rodando, bamboleando
que a vida rege cada um dos momentos
nossos passos, nossos tombos, pra quê!
deixe que a doença lhe pese as pestanas
largue que a mentira lhe convença
esqueça a verdade e viva a proeza de
deleitar-se na maluquice, deixe o insosso
viva intensamente os pecados em colossos
feche os olhos, sinta-se enorme como o mar.
Ela subia os degraus da escada como se fosse cada passo um de seus milhares de pecados. Tinha nas mãos uma boneca de porcelana mascarada e uma venda azul. Era um dia normal, uma terça-feira, dia em que tudo parece correr melhor que em segundas, mas não tão mais calmas quanto nas quartas. Era o dia perfeito para se provocar uma situação inusitada. Os lábios surtiam um certo sorriso irônico e as cordas vocais rascunhavam um canto gutural e lacrimoso, tal qual os olhos perdidos por entre os degraus e a perpendicular de sua visão. A escada em espiral refletia as voltas e reviravoltas de suas caminhadas, de seus passos e de suas vistas. Era tarde demais para ser cedo, era cedo demais para se tornar tarde. Faltavam-lhe ainda seis degraus.
O próximo tinha um fluído semi-transparente formando a palavra "amigos"; ela preferiu fechar os olhos e pisar com força sobre aquela palavra, dissolvendo-a até tornar-se invisível na sola de seus sapatos. No outro degrau havia "família" e ela pôde sentir seu coração ritmar-se diferente, estava prestes a tomar-se por uma angústia, uma saudade e um ódio que se misturavam e resultavam um confuso olhar apertado. Adiantou-se para terceiro degrau e viu a palavra "irmãos" e ela pensou que deveria abstrair tal palavra que basicamente não lhe aparecia no vocabulário vital, era filha-única, mas algo palpitou em seu interior fazendo-a recordar de alguém que ela queria ter saído do mesmo lugar que ela no mesmo tempo em que ele havia surgido na Terra, mas que não tivesse expirado como ocorreu - até agora ela não conseguia acreditar.
A partir do quarto degrau, a garota começou a ter sua garganta apertada, a respiração dificultada e o coração disparado. A palavra "pai" surgiu arranhada no degrau, como se garras ferinas haviam feito o trabalho tão rude. Seus olhos moveram-se pelas estreitas paredes da escada e ela procurou apoiar-se por um instante, como se tentasse buscar no fundo da mente uma cena nova que lhe trouxesse sentimentos bons referentes à palavra suposta. Não, eram sempre os mesmos; talvez sua memória falhasse demais ou talvez fosse só aquilo mesmo, genéricamente. Não, já havia tanto tempo que havia se convencido de ter superado aquele degrau, fingiu não ter sido incômodo pisar e avançar sobre aquele degrau. O quinto degrau estava coberto de poeira salpicada por gotas, como se houvesse garoado apenas alí. As gotas haviam formado a palavra "mãe". A garota recolheu o ar com força, como se tentasse inalar aquelas areias escuras e finas postas no degrau, mas aquele ato buscava trazer os resíduos para seu interior, como se tentasse matá-lo por dentro, como se em seu recheio existisse o antídoto certo para se limpar aquele degrau. Pisou forte e fez ecoar o barulho pela escadaria abaixo, era o penúltimo degrau.
Finalmente, chegando ao último degrau, a garota deparou-se com uma parede sobre ele. Uma espessa e frágil parede pintada de salmão - mistura de rosa com talvez vermelho ou marrom. Se fosse explicar o porquê daquela cor, seria misturar a delicadeza do rosa com sangue ou com as impurezas do marrom. A parede tinha sido feita de cimento pontiagudo em certas partes, outras, estavam alisadas cuidadosamente. Havia alguns buracos, os quais deixavam aparecer pedaços de tijolos cobertos de líquenes. A parede apresentava poucos centímetros abaixo de um metro e oitenta e em seu alto término havia lanças que outrora haviam sido prateadas, porém agora estavam enferrujadas como metal barato. Se fosse adivinhar daonde viria aquela parede, imaginaria que fazia parte de um muro de alguma casa, só não diria fortaleza porque era aparentemente fina demais para uma construção superprotetora. Como havia de quebrar aquela parede para prosseguir?
Tentou chutar, tentou dar-lhe socos e mais pontapés, pensou em usar alguma picareta ou uma britadeira, mas não dispunha desses materiais lá. Resolveu maldizer a parede, chamou-a de todos os nomes possíveis, gritou, berrou e se esperniou contra ela, amaldiçoou-a desde os átomos de seus componentes até ao ser mutualista que se alojara em seus tijolos. Nada adiantava, a parede continuava alí imóvel e decrépita como desde os primórdios já se encontrava. A garota resolveu sentar, encolheu-se num canto e percebeu que estava se sujando naquela espessa poeira que rasbicara a palavra mãe. Olhou para as solas do sapato e percebera que havia alí um resto de fluído semi-transparente, que havia ralado a sola na palavra cravada num dos degraus também. Havia resto de todos os degraus nas vestes daquela garota, por fim, exceto qualquer resíduo provindo do terceiro degrau.
A garota resolveu então desistir, pensou em voltar e descer os degraus, mas não havia subido aquilo tudo para desistir por causa de uma maldita parede. Deu de ombros e pensou não ligar mais para aquela construção. Ela permaneceu estática, não mudava nada, era imbatível, nada adiantava. Pensou que talvez mesmo se tivesse uma bomba nuclear, aquela parede sobreviveria como uma barata! Era uma barata mesmo, asquerosa e enorme, voadora, transeunte dos lixos. Demorou um tanto, mas a garota pôde abstrair, começou a pensar em seus próprios problemas, lembrou de suas pessoas, de sua vida e foi quando ela fechou os olhos e virou o rosto contra a parede, que foi quando ela desmoronou como se fosse feita de vidro. Pequenos estilhaços vieram em cascata sobre a garota e deixaram-lhe com vários cortes superficiais e mais outros mais sérios. Depois de tudo se quebrar, ela espalhou os cacos de vidro daquele degrau e enxergou que apenas o pó do vidro havia formado a palavra "eu".
Aquilo a fez automaticamente perder qualquer sentido, ainda que seus nervos insistissem em transmitir dor. Um pé pisou depois do outro e o vento bateu contra o rosto da garota. Ela estava no céu. Pôde tirar de dentro do bolso do casaco um frasco tampado à rolha, etiquetado como "selenita". Prometeu que alí dentro guardaria um pedaço do céu composto por nuvem e estrelas. E ela pôde cumprir, ela guardou, mas o vidro se quebrou quando ambos - o frasco e ela - encontraram o chão numa queda de dezoito andares.
