Hoje quando eu estava voltando da faculdade, estava morrendo de cólica.
Foi uma dor tão forte que chegou a ser alucinógena. Sim, eu estava
caminhando com passos curtos e não muito distantes do chão, para não
contrair mais o meu útero e doer. A Avenida Paulista está em obras
desde que cheguei aqui em São Paulo... Tenho que desviar e prolongar
meu caminho com mais alguns pequenos metros. Nesses espaços apertados,
sempre vejo pessoas indo e vindo sem parar, todas distraídas ou
perdidas em seus próprios afazeres. Raramente alguém presta atenção no
que você diz ou faz, mesmo que você berre, mesmo que diga algo horrível.
Hoje, como queria desviar minha mente para fingir que os 20 minutos de
caminhada iriam ser mais rápidos, comecei a divagar. Bem, na verdade,
só consegui fazer isso lá pelo final da caminhada, após rir comigo
mesma de um anunciante de Lan House com um papel de 'Free Hugs' na mão.
Foi descendo as alamedas, já perto do pensionato, que uma música surgiu
nos meus ouvidos, sem nem eu estar portando fones ou um mp3 player.
Eu olhava para pessoas, com sinestesia, com apuração das cores. Elas
estavam mais vívidas, o stress se tornou graça e toda aquela gente
subindo e descendo fazia parte de um musical. O homem da pasta com cara
irritada tinha pressa, porque o chefe era neurótico e ele, paranóico e
perfeccionista. A mulher gordinha e baixinha era escandalosa e
piadista. O negro de roupas largas era um líder do gueto. Todo mundo
ganhou um compasso, todo mundo ganhou uma música e um rítmo, um papel
na peça, uma peça no quebra-cabeças.
Eu costumo perder meu tempo humanizando pedras e perder humanos recolhendo pedras.
Vastas e empoeiradas
Estrelas!
Brilhos desprendidos
Maquiavélicos de paixão.
Ébrios, felinos cantam
Como bardos enlevados
Poetas, pois não?
Eis o afresco do belo...
Muito vem da noite,
Não só orvalhos
E garoas
Mas as lágrimas!
Estas que correm
Como riachos, cachoeiras
De esferas multicoloridas,
Regam meus sentidos.
Enfim, surge dos montes
Hélio altivo e sereno
Áureo e delicado
A iluminar a sinfonia
Acabou-se o que emocionou-se
Quem sentiu, contentou-se.
Joguemos fora
Estes ódios
Agregados a nós.
Despreguemos os quadros
Da parede branca,
Mantenhamaos a lividez,
A cálida brancura
Estatelada por passados
Unamos ladrilhos
Para compormos caminhos
E fugirmos!
Vamosnos fazer desapercebidos
E nos darmos as mãos
Unidos, munidos
De coragem e cegueira
Sãos.
Estou tão infeliz, meu deus!
Tão infeliz que poderia
Chorar por todo o sempre
Sem sequer poder respirar
Aí, meu deus, iría me matar!
Sinto-me tão descontente,
Vejo-me tão decadente
Até quando vai, meu deus,
Isso durar?
Tem alguém aí de cima?
Há alguém sorrindo em som?
Quem é que mandou-me esta ordem?
De denegrir-me viciosamente
Incansável e eloqüente...
O que é que se passa?
Por que é que não me avisaram?
Assim eu poderia me recolher
E pedir perdão pelos sorrisos,
Pelos risos, por ter sido feliz!
Dessem-me ao menos uma chance
De reconhecer outra vez ser só
Deixassem-me provar as lágrimas
E de novo, sentir os músculos
Contraírem, umidecerem, caírem...
Foi injusto terem me dado
Esse golpe tão certeiro
Depois de muito soluçar,
Restou-me um pedaço de lençol
Onde enrolei-me
Ali, lugar que não quis deixar
Brotei-me junto do colchão
Senão mais duro que o próprio chão
Frio como a relva da manhã
Silente como as sirenes
Dá, meu deus, uma chance de
Saber como me redimir...
Perdão pelas minhas zombarias,
Pelos meus pulos de alegria,
Pelas festas, pelas canções,
Perdoa-me por ter tido coragem,
Desculpa-me por ter tido vontade
Redima-me por ter tido vantagem
Justifica-me por ter sido feliz!
E é tudo tão maluco quando a gente
Perde o chão de flores e sementes
P'ra pisar no calcário chão de pedra
Pontiagudo, reluzente, vasto...
Ah, amplas pradarias de solidão
Oh, brilhante lua de verão...
Por que é que não me inspira?
Por que é que faz-me sofrer em vão?...
