meu corpo dói, arde, quebra
as lágrimas cessam e voltam
caem e secam, vão ao chão
quem dera eu fosse forte
temer somente então a morte
não bastar-me na fraqueza
de ser frágil como sou
minhas cicatrizes e calos
são os gatos da minha pele
que eu rasgo, arranho, surto
porque de mim foge um ai
que dói e não pára jamais
deixo minha metade maior
sem saber direito como vou ver
morro antes da hora
sangro antes da punhalada
nasço antes da concepção
a ânsia do sofrimento
sufoca-me como forca
é castigo, é um meio
de fazer-me mais madura
e deixar de deixar de ser
seu silêncio me comove
me dissolve numa culpa que
infinita, corrói e entrelaça
todo meu interim, meu eu
seu não-sorriso é meu choro
porque por você eu sofro
e não custa nada o fazer
são as gentilezas do meu ser
vou, vou e vou voando
pelos horizontes mais infindos
onde o caminho é labirinto
que é onde me perco de você
deixo para trás tudo que fiz
tudo o que me deu e me trouxe
todas as pegadas, os cheiros,
os abraços, os amores, as palavras,
os presentes, as baladas, os versos
deixo tudo como o tempo poeira deixa voar
vai, a insensatez da minha face
é tão grande quanto a sua vontade
de ignorar o meu eu e crescer o seu
vai, deixa que flua transparente
e se disfarce tal incidente
na minh'alma que vai a perecer
fundindo, caindo, descongelando...
cada gota d'água formando um véu
e desaguando, chega ao oceano
se desfaz em onda, espuma, mar...
deixa, deixa o casulo ser de seda
a lagarta poder ser borboleta
e livre voar, cantar, dançar...
some, some da vista, pelas montanhas
finge que não tem mais as entranhas
porque nelas bate inquieto
o laço que o prende na terra quente
arranca, tranca com seis chaves
guarda cada elas nos seus olhos
porque neles só quem puder, achará
vai... e não volte, não volte nunca mais.
