Minh'alma é doce
Ontem quando me deitei para dormir, quis sonhar. Cheguei a pedir ao nada, porque nada poderia me responder ou sequer atender. Fechei os olhos, pisquei-os mais umas três vezes, até eles finalmente travarem no vazio da escuridão. Um palmo não pude ver frente aos meus olhos. Mesmo que a minha fobia ao escuro desse-me nauseas e desassosego, quis experimentar essa falta de matéria que ele me dá.
Escuro, tão profundo, tão vazio e tão cheio. Meu quarto é abarrotado de coisas, papéis, diários, fichários, lápis e pincéis... Não me atreveria a dar passos fora da cama, saberia que poderia pisar em algum grampo caído no chão. E doeria. Minha cama tão quente, tão aconchegante, tão emocionantes cochilos outrora tive aqui!
Um murmúrio do vento passou pelas frestas da janela de madeira, fantasmagórico como costuma ser. E o vazio do escuro o engoliu, abafando-o entre os casacos próximos à cortina como um quasar. Um zumbido ou outro também foi engolido. E eu agradeci aos céus noturnos por isso, meu medo de insetos é exagerado, enlouquecido e desavergonhado. O bater de pequenas asinhas logo se esvaiu por algum canto do cômodo e eu me acalmei mais.
Voltei ao meu desejo, ao meu mais entorpecido de sonhar. Revirei-me outra vez na cama e mil vozes surgiram por de trás dos meus tímpanos. Lembrei-me da voz da minha professora, dos meus amigos, parentes, do mais longínquo dia infantil em que ganhei uma boneca de pano. Todas aquelas vozes, frases prontas que surgiam espontâneas, atropeladas e impacientes. Mil voes e estalidos como estrelas e fogos de artíficio atormentavam minha mente cansada.
Pesei o travesseiro sobre a cabeça, demarcando-me contra o colchão. Meus olhos apertados, agarrados órbitas e pestanas, sinestesiando as estrelinhas sonoras. Mil fagulhas me surgiam no escuro dos meus olhos fechados. Quais festas, maravilhas, reveillons, de noite ou de dia fariam tanto estardalhaço no sono? Só eu e minha apnéia... Só eu e minhas fantasias... Elas me chamaram para voar junto delas. Pude ouvir. Pude mesmo e juro, que das minhas entranhas surgiram notas estranhas ao do-ré-mi.
Canônica ode, fantasmagórico réquiem... Fantasia minha trouxe-me pelos dedos até esse jardim de pólens reluzentes. Umas pequenas criaturas esvoaçantes, brilhantes, estrelinhas aladas e multicoloridas contornavam-me sorridentes e amedrotadas. Monstro extraterrestre eu fui, sem antenas e pele clorofilada. Ela me disse: "Venha e voe comigo, esta noite"* e por que não aceitá-la? Deu-me asas tão lívidas e cintilantes, frágeis como papel, leves como plumas. Fez-me serafim de rascunhos infantis, fez-me felicidade de querubins.
Por uma noite, quatro ou cinco horas mal dormidas, dez ou vinte minutos aéreos me bastaram para ousar pisar no chão gélido e percorrer até a cozinha, coar o café.
* My Brightest Diamond - Dragonfly
Hoje quando eu estava voltando da faculdade, estava morrendo de cólica.
Foi uma dor tão forte que chegou a ser alucinógena. Sim, eu estava
caminhando com passos curtos e não muito distantes do chão, para não
contrair mais o meu útero e doer. A Avenida Paulista está em obras
desde que cheguei aqui em São Paulo... Tenho que desviar e prolongar
meu caminho com mais alguns pequenos metros. Nesses espaços apertados,
sempre vejo pessoas indo e vindo sem parar, todas distraídas ou
perdidas em seus próprios afazeres. Raramente alguém presta atenção no
que você diz ou faz, mesmo que você berre, mesmo que diga algo horrível.
Hoje, como queria desviar minha mente para fingir que os 20 minutos de
caminhada iriam ser mais rápidos, comecei a divagar. Bem, na verdade,
só consegui fazer isso lá pelo final da caminhada, após rir comigo
mesma de um anunciante de Lan House com um papel de 'Free Hugs' na mão.
Foi descendo as alamedas, já perto do pensionato, que uma música surgiu
nos meus ouvidos, sem nem eu estar portando fones ou um mp3 player.
Eu olhava para pessoas, com sinestesia, com apuração das cores. Elas
estavam mais vívidas, o stress se tornou graça e toda aquela gente
subindo e descendo fazia parte de um musical. O homem da pasta com cara
irritada tinha pressa, porque o chefe era neurótico e ele, paranóico e
perfeccionista. A mulher gordinha e baixinha era escandalosa e
piadista. O negro de roupas largas era um líder do gueto. Todo mundo
ganhou um compasso, todo mundo ganhou uma música e um rítmo, um papel
na peça, uma peça no quebra-cabeças.
Eu costumo perder meu tempo humanizando pedras e perder humanos recolhendo pedras.
Vastas e empoeiradas
Estrelas!
Brilhos desprendidos
Maquiavélicos de paixão.
Ébrios, felinos cantam
Como bardos enlevados
Poetas, pois não?
Eis o afresco do belo...
Muito vem da noite,
Não só orvalhos
E garoas
Mas as lágrimas!
Estas que correm
Como riachos, cachoeiras
De esferas multicoloridas,
Regam meus sentidos.
Enfim, surge dos montes
Hélio altivo e sereno
Áureo e delicado
A iluminar a sinfonia
Acabou-se o que emocionou-se
Quem sentiu, contentou-se.
Joguemos fora
Estes ódios
Agregados a nós.
Despreguemos os quadros
Da parede branca,
Mantenhamaos a lividez,
A cálida brancura
Estatelada por passados
Unamos ladrilhos
Para compormos caminhos
E fugirmos!
Vamosnos fazer desapercebidos
E nos darmos as mãos
Unidos, munidos
De coragem e cegueira
Sãos.
Estou tão infeliz, meu deus!
Tão infeliz que poderia
Chorar por todo o sempre
Sem sequer poder respirar
Aí, meu deus, iría me matar!
Sinto-me tão descontente,
Vejo-me tão decadente
Até quando vai, meu deus,
Isso durar?
Tem alguém aí de cima?
Há alguém sorrindo em som?
Quem é que mandou-me esta ordem?
De denegrir-me viciosamente
Incansável e eloqüente...
O que é que se passa?
Por que é que não me avisaram?
Assim eu poderia me recolher
E pedir perdão pelos sorrisos,
Pelos risos, por ter sido feliz!
Dessem-me ao menos uma chance
De reconhecer outra vez ser só
Deixassem-me provar as lágrimas
E de novo, sentir os músculos
Contraírem, umidecerem, caírem...
Foi injusto terem me dado
Esse golpe tão certeiro
Depois de muito soluçar,
Restou-me um pedaço de lençol
Onde enrolei-me
Ali, lugar que não quis deixar
Brotei-me junto do colchão
Senão mais duro que o próprio chão
Frio como a relva da manhã
Silente como as sirenes
Dá, meu deus, uma chance de
Saber como me redimir...
Perdão pelas minhas zombarias,
Pelos meus pulos de alegria,
Pelas festas, pelas canções,
Perdoa-me por ter tido coragem,
Desculpa-me por ter tido vontade
Redima-me por ter tido vantagem
Justifica-me por ter sido feliz!
E é tudo tão maluco quando a gente
Perde o chão de flores e sementes
P'ra pisar no calcário chão de pedra
Pontiagudo, reluzente, vasto...
Ah, amplas pradarias de solidão
Oh, brilhante lua de verão...
Por que é que não me inspira?
Por que é que faz-me sofrer em vão?...
Nisso, eu parei e pensei:
Qu'é que vamos ter hoje?
Nada, nem adianta adiantar
Tentar criar na cabeça
Uma previsão do imprevisível
Do instável mais que visível
Hoje o dia há de se acabar
E se acaba belo entre gotas
A chuva que lava a luz e
Traz as trevas, a lua e estrelas
Manda embora a lividez etérea
E traz de volta o manto negro
Mas vem de volta o dia
E ilumina, num rasgo de cetim
Aquele tão profundo abismo inverso
Onde piscam mil olhos distantes
Rasga e ilumina nossas casas
Adentra nossas janelas e nos assombram
Em uis e ais, clamamos a superstição
Temos medo e nos afetamos
Mas, em realidade, estamos bem
Não é que as gotas se colem
Às vidraças da janela a toa:
Juntam-se elas, unem-se uma a uma
E escorrem, completas, cachoeira
Escorregam casadas, unem-se a outras
Amam-se umas as outras e se entregam
Ao término, à madeira da divisa
E voltam a ser resto de água
Viram poça, viram nada
Evaporam e são nuvens!
Oh, tão belo trajeto desta vida...
Mas não é? Se pudéssemos então
Escolher o que fazer para hoje
Eu escolheria ser chuva, ser água
Queria deixar de sobrevoar as miudezas
E unir-me a elas, líquida ou sólida
Sendo neve ou garoa, tempestade
Vou lá, chego lá, junto-me ali, acolá
E me reluzo nos raios do sol
Esquento-me nessa quentura amarela
De repente, vejo-me tão bela
Desfazer-me invisível, desintegrar-me
Perdendo-me em sentidos até finalmente
Voltar!
Voltara, voltara às nuvens
Às etéreas componentes refratárias
Onde o sol faz seus afrescos fugazes
Nos crepúsculos mais belos e úmidos
Porque a Terra gira e traz de volta
A noite, o tão belo manto purpurino
Traz de novo e vai embora, eis o ciclo
Tão estranha e próxima,
Tão sublime e assombrosa,
Eis que me surge o medo
De engolirem-me as trevas
Ora tão bela e mística,
Agora tão crua e verídica
Eis que vem-me com dor
Num misto de espanto e horror
Eis que as coisas mais lindas
Findam num caminho, só
Sozinhas partem-se a fio,
Solitárias compartilham o pó
A poeira que resta dos anos
Da vasta trilha entretida
Num sádico rítmo de cair
E levantar e logo tudo acabar
Do meu interim ressoou hoje
Uma exclamação confusa, duvidosa
Eu, que queria tanto encontrar,
Perdi-me na pergunta sem resposta
Eu, que me calo e consinto
Na ignorância de ser o que sou
Na impertinência de respirar,
Na insignificância de existir
[e se expurgar.
Eu, que nas mais gélidas noites
Persegui-me por entre os sonhos
Buscando-me resgatar, por mim só
Eis que me prendo, sim, em um nó
O elo das incertezas, fraquezas
A corrente que prende as dúvidas
Os cheiros e cores que não se sentem
Mais vão ficar que se deixar levar
Partem de ti todas as palavras
Dignas de serem lembranças recordadas
Vêm de ti um resto de chama
Para que a vida, realmente, mereça
[aquele que a ama.
Que é na morte que todo passageiro
Deixa de viajar por puro prazer
Sente as dores dos infortúnios,
A escuridão dos que não enxergam,
A loucura dos que não consentem,
O desespero dos que não refletem,
A angústia dos que não recebem,
A vingança dos que perdem,
A desilusão dos que morrer, não querem.
está escondido por entre teus cabelos
a sutileza, o sublime que te falta
na estranheza que te fazem, injusta
se tu estivesses sozinha
apostaria eu que fora propósito
teu perder-te num nada de repente
porque é da tua natureza perder
a cabeça num momento de certeza
em que pede-se razão e consciência
é teu, é parte tua ser assim...
tantas vezes fizeste-me louco
e eu pedi aos deuses que poupassem-te
de qualquer infortúnio, que afastassem-te
das trevas, das quimeras, de Medusa
que teus olhos curiosos não a encarassem
mas tu nunca deixaras de arriscar a ti
pois tu nunca tiveste um só juízo
e é tua imoralidade que me faz feliz
é nesses gritos ensurdecedores sem motivo
nesses passos tortos e desapercebidos
que moram detalhes de todo meu amor
por ti, por teu jeito, por tua maluquez
é em ti que mora meu alter ego, pois sou
o inverso da tua anti-lucidez, sou cru,
tosco, rústico, antiquado, mal-acabado
e tu, tão leve e ligeira, ninfa és tu!
ah, deleite meu passar horas na tua imagem
pela minha cabeça detalhar-te e enfeitar-te
com áureas folhas e gotas cristalinas
fazer-te afresco dos deuses, delícia de Baco
transformar-te serena, tão incerta criatura
mas tão bela na confusão de um só ser
é a beleza do intransitivo que pede advérbio
de tempo, espaço, modo, toda palavra do mundo
que diga a ti de outra forma a frase "te amo"
porque esta, já te cansara de me ouvir
oh, mas amo-te sim, minha mais nobre ninfa
pois tuas pernas te fazem caminhar tão sutil
pelos campos, faz gramíneas tão macias e úmidas
pois teu choro é o orvalho de toda noite,
teus olhos são estrelas e tu és a própria Lua
és inspiração das realezas, do absurdo
tua morada é atrás das altas montanhas nevadas
pois conserva-te fria uma quentura que acalenta
este ser que tão depressa por ti se derretera
Lua forte e amena, doce poesia de Atena
és guerreira em que minha ode venho a cantar
mas por ti enfrentaria Hades p'ra do inferno
poder para mim te trazer e sempre para ficar...
Nesses dias estranhos,
Eu não acordo com você no celular
Eu não vou à escola de manhã,
Nem sento no fundo, ao seu lado
Nesses dias estranhos,
Você e eu somos também estranhos
Nesses dias urgentes,
Eu não acordo por mim mesma,
Nem vejo o céu, nem o fim da tarde
Não vejo o mar, nem vejo rios
Não sinto fome, só sinto frio
Nesses dias urgentes,
Você e eu estamos tão distantes
Nesses dias loucos,
Eu sou uma marionete do tempo,
As trilhas dos meus passos somem
E se misturam a mil pegadas
Não faço diferença nessa selva
Nem faria, se desaparecesse
Nesses dias loucos,
Você e eu nos dispersamos
Nesses dias chuvosos,
Eu sou mais um vulto na cidade,
Não espero nada de ninguém
Nem sinto que eu o vou ver
Porque não faz sentido sentir
Não faz idéia do quanto falta
Nesses dias chuvosos,
Você e eu estamos a nos procurar
É nesses dias em que nos afastamos
Que o tempo corre lento e imaculado
Nada foge dos seus eixos, nada passa
Só se empurra e releva e se entrega
Não adianta o choro nem a vela
Não são as preces, são os fatos
Esperar nada mais é que um fado
Mas espera, como todo dia vem a lua
Tudo há de passar, de se deixar passar
E nós estaremos novamente juntos
E nossos dedos procurarão uns aos outros
E atordoados, eles colidirão e procurarão espaços
Onde, em enlaços, juntarão, apertarão
Concretizarão nossa ída e vinda novamente
Vamos fingir que nada vai começar de novo...
É nesse espiral desatento que o destino finge ser
Que nossas almas se unem e se separam
Como um destacar de pele sobre ferida
E sangra, sangra pouco, mas ainda mancha em rubro
Que é p'ra marcar que existe,
Mas que logo irá se deixar levar
Eu não sinto as palavras chegarem à boca
Eu não sinto o deleite, o enfeite que
Outro dia se desfazia em gramas tão soltas...
De repente, tudo se entorta como espiral
E o passado se confunde com o presente
É uma escadaria, cada degrau, meu mau
É uma avalanche de sentimentos frustrados
De olhares atravessados, desaprovados, espertos
Uma avalanche de gelo que derrete em choro
Ah, enferrujam as belas estátuas metálicas
O férreo dilema do ego se faz líquido
Oh, como aqueles dias podiam voltar!
Poeta em mim que dilacera, hoje morre
Move, delibera, liberta um eu que já havia
Deixado de ser parte do meu ser, de haver
Eu não dou a mínima para mais nada,
Machucar é relativo às palavras que soam
Mas elas soam sem sentido, tão ásperas...
Não, eu pensava que as geografias difericem
Que a maciez se encontrasse entre formigas
Mas elas são tantas que pisoteiam-se num cubo
É, ainda que eu tenha me confeccionado
Uma coroa de espinhos de sentimentos atentos
Eles são meros, singelos e mornos
Um aborto à toda essa minha desvariedade
Do desvario dos meus olhos fundiram-se rios
Cada gota uma palavra, cada palavra um lamento
Eu lamento, desculpo-me e remendo
Mas não há como remendar o que já se furou mais
E mais e mais, eu atento, renova jamais...
