é como se eu estivesse tentando engolir
uma colherada muito bem recheada
de cereais provindos duma colheita
de plantas sadias de horror e maleita
é como se eu estivesse para descobrir
que sentir o que sinto fosse uma seita
meus olhos ardem sabe-se lá o porquê
as palavras mais suaves transmitem medo
aprendi a deter o vento num cata-vento
porque é girando, rodando, bamboleando
que a vida rege cada um dos momentos
nossos passos, nossos tombos, pra quê!
deixe que a doença lhe pese as pestanas
largue que a mentira lhe convença
esqueça a verdade e viva a proeza de
deleitar-se na maluquice, deixe o insosso
viva intensamente os pecados em colossos
feche os olhos, sinta-se enorme como o mar.
Ela subia os degraus da escada como se fosse cada passo um de seus milhares de pecados. Tinha nas mãos uma boneca de porcelana mascarada e uma venda azul. Era um dia normal, uma terça-feira, dia em que tudo parece correr melhor que em segundas, mas não tão mais calmas quanto nas quartas. Era o dia perfeito para se provocar uma situação inusitada. Os lábios surtiam um certo sorriso irônico e as cordas vocais rascunhavam um canto gutural e lacrimoso, tal qual os olhos perdidos por entre os degraus e a perpendicular de sua visão. A escada em espiral refletia as voltas e reviravoltas de suas caminhadas, de seus passos e de suas vistas. Era tarde demais para ser cedo, era cedo demais para se tornar tarde. Faltavam-lhe ainda seis degraus.
O próximo tinha um fluído semi-transparente formando a palavra "amigos"; ela preferiu fechar os olhos e pisar com força sobre aquela palavra, dissolvendo-a até tornar-se invisível na sola de seus sapatos. No outro degrau havia "família" e ela pôde sentir seu coração ritmar-se diferente, estava prestes a tomar-se por uma angústia, uma saudade e um ódio que se misturavam e resultavam um confuso olhar apertado. Adiantou-se para terceiro degrau e viu a palavra "irmãos" e ela pensou que deveria abstrair tal palavra que basicamente não lhe aparecia no vocabulário vital, era filha-única, mas algo palpitou em seu interior fazendo-a recordar de alguém que ela queria ter saído do mesmo lugar que ela no mesmo tempo em que ele havia surgido na Terra, mas que não tivesse expirado como ocorreu - até agora ela não conseguia acreditar.
A partir do quarto degrau, a garota começou a ter sua garganta apertada, a respiração dificultada e o coração disparado. A palavra "pai" surgiu arranhada no degrau, como se garras ferinas haviam feito o trabalho tão rude. Seus olhos moveram-se pelas estreitas paredes da escada e ela procurou apoiar-se por um instante, como se tentasse buscar no fundo da mente uma cena nova que lhe trouxesse sentimentos bons referentes à palavra suposta. Não, eram sempre os mesmos; talvez sua memória falhasse demais ou talvez fosse só aquilo mesmo, genéricamente. Não, já havia tanto tempo que havia se convencido de ter superado aquele degrau, fingiu não ter sido incômodo pisar e avançar sobre aquele degrau. O quinto degrau estava coberto de poeira salpicada por gotas, como se houvesse garoado apenas alí. As gotas haviam formado a palavra "mãe". A garota recolheu o ar com força, como se tentasse inalar aquelas areias escuras e finas postas no degrau, mas aquele ato buscava trazer os resíduos para seu interior, como se tentasse matá-lo por dentro, como se em seu recheio existisse o antídoto certo para se limpar aquele degrau. Pisou forte e fez ecoar o barulho pela escadaria abaixo, era o penúltimo degrau.
Finalmente, chegando ao último degrau, a garota deparou-se com uma parede sobre ele. Uma espessa e frágil parede pintada de salmão - mistura de rosa com talvez vermelho ou marrom. Se fosse explicar o porquê daquela cor, seria misturar a delicadeza do rosa com sangue ou com as impurezas do marrom. A parede tinha sido feita de cimento pontiagudo em certas partes, outras, estavam alisadas cuidadosamente. Havia alguns buracos, os quais deixavam aparecer pedaços de tijolos cobertos de líquenes. A parede apresentava poucos centímetros abaixo de um metro e oitenta e em seu alto término havia lanças que outrora haviam sido prateadas, porém agora estavam enferrujadas como metal barato. Se fosse adivinhar daonde viria aquela parede, imaginaria que fazia parte de um muro de alguma casa, só não diria fortaleza porque era aparentemente fina demais para uma construção superprotetora. Como havia de quebrar aquela parede para prosseguir?
Tentou chutar, tentou dar-lhe socos e mais pontapés, pensou em usar alguma picareta ou uma britadeira, mas não dispunha desses materiais lá. Resolveu maldizer a parede, chamou-a de todos os nomes possíveis, gritou, berrou e se esperniou contra ela, amaldiçoou-a desde os átomos de seus componentes até ao ser mutualista que se alojara em seus tijolos. Nada adiantava, a parede continuava alí imóvel e decrépita como desde os primórdios já se encontrava. A garota resolveu sentar, encolheu-se num canto e percebeu que estava se sujando naquela espessa poeira que rasbicara a palavra mãe. Olhou para as solas do sapato e percebera que havia alí um resto de fluído semi-transparente, que havia ralado a sola na palavra cravada num dos degraus também. Havia resto de todos os degraus nas vestes daquela garota, por fim, exceto qualquer resíduo provindo do terceiro degrau.
A garota resolveu então desistir, pensou em voltar e descer os degraus, mas não havia subido aquilo tudo para desistir por causa de uma maldita parede. Deu de ombros e pensou não ligar mais para aquela construção. Ela permaneceu estática, não mudava nada, era imbatível, nada adiantava. Pensou que talvez mesmo se tivesse uma bomba nuclear, aquela parede sobreviveria como uma barata! Era uma barata mesmo, asquerosa e enorme, voadora, transeunte dos lixos. Demorou um tanto, mas a garota pôde abstrair, começou a pensar em seus próprios problemas, lembrou de suas pessoas, de sua vida e foi quando ela fechou os olhos e virou o rosto contra a parede, que foi quando ela desmoronou como se fosse feita de vidro. Pequenos estilhaços vieram em cascata sobre a garota e deixaram-lhe com vários cortes superficiais e mais outros mais sérios. Depois de tudo se quebrar, ela espalhou os cacos de vidro daquele degrau e enxergou que apenas o pó do vidro havia formado a palavra "eu".
Aquilo a fez automaticamente perder qualquer sentido, ainda que seus nervos insistissem em transmitir dor. Um pé pisou depois do outro e o vento bateu contra o rosto da garota. Ela estava no céu. Pôde tirar de dentro do bolso do casaco um frasco tampado à rolha, etiquetado como "selenita". Prometeu que alí dentro guardaria um pedaço do céu composto por nuvem e estrelas. E ela pôde cumprir, ela guardou, mas o vidro se quebrou quando ambos - o frasco e ela - encontraram o chão numa queda de dezoito andares.
alcançar-te nos sonhos eu irei
meus braços sozinhos subirão
por mim mesma, eu ascenderei
alcançarei-te até onde o levarão
nunca vi as solas dos meus pés
gastas pela corrida no deserto
mas hoje racharam-se como fés
que eu carregava em peito aberto
ah, as manhãs têm trazido o sol
mais triste que quaisquer dias
a luz seria a tristeza dum farol
guiando afogados em apatias
eu afoguei-me nessas poças
de lágrimas, suspiros e solidão
abdiquei-me de feições moças
meus olhos viraram escuridão
vai ver isso seja só emotivismos,
afoguei-me seguindo sua nau
conheço por alí dois abismos
o da saudade e o do mau
eu sempre soube, fui avisar
mas já caiu na saudade abissal
suas águas disponho-me tomar
para me sentir também como tal
mas em meus devaneios...
ah, neles sua silhueta eu sinto
fazer-me os espaços cheios
entre os braços e o peito minto
que meu coração se chacoalha
mas tão desparado ele está
que toda palavra se embaralha
e todo sonho vai ao deus-dará...
nesses mesmos sonos escassos
eu tenho medo de acordar
porque aí perco de todos abraços
o sentimento que vem me aninhar
meus olhos se enchem inconsciente
de choro e de riso, apertam-se fortes
querendo o sonho trancar em mente
como uma cura a todas as mortes
please stop this feeling that you get
and take me till i whisper anger and fear
what's this that you fake to me?
what's this that you're telling me?
when i raise you know you're dead
no consequence in your acts
will cut your neck in small pieces
you will fall as a rock in an abyss
i will follow you with eyeds until the end
your ambition made you human
even i felt you like an animal
your steps left marks of a demon
how could this happen to you?
i mean, did you leave it happen?
was it spontaneous or did you force it?
i mean... what's the joy on being you
only you can see yourself well
because all the bricks of your walls fell
there's no army around your kingdom
you're not queen nor king, no dinasty
only death, dead eyes, dead future
i swear i don't understand... i just
i just feel you could stop being you
you can just fake you're not so stubborn
and let life being human with you
you're no god nor godess
you're no divine nor blessed one
keep falling, keep falling
falling rock.
cold and hard turning into pieces
turning into sand, dust, nothingness
talvez eu tenha nascido torta
assim, cheia das imperfeições,
das idiossincrasias, dos defeitos
talvez eu seja a ofensa do perfeito
porque de tanto errar, consertei-me
vai ver tudo acabou se voltando
contra o que não é comum e humano,
normal e trivial, fácil de se ver
vai ver eu não sou só um defeito
mas também um mal arremate
na costura do ser, numa fecundação
meus genes às vezes podem ser
inúteis, simplesmente só letrinhas
combinadas como um sudoku abecedário
mas eu não sei, é tudo ilusório realmente
a gente se julga e se subjulga, condiciona-se
e na verdade é bem contrário, também torto
vai ver nasci torta porque não aprendi
a endireitar-me do jeito que deveria estar
às vezes nasci errada para perturbar o certo
ou então nasci imperfeita para me aperfeiçoar
mas de uma coisa tiro duas: morrerei e não alcançarei
os dotes e dons que a natureza já faz doação
bem, se fosse um presente, perdi a festa
se fosse dádiva, perdi o prestígio
se fosse unânime, perdi a normalidade
se fosse incondicional, perdi a infinidade
se fosse abrangente, perdi a distribuição
se fosse belo, perdi a compostura...
sei lá, vai ver eu deveria ter-me visto antes
assim eu não acabaria topando com espelhos
porque quando saio à rua só os vejo
e eles se refletem e se multiplicam, infinitos
as pessoas são espelhos e são difíceis de se ver
o que há por trás delas, elas só refletem...
sei lá, nasci opaca e quente demais
vai ver eu só sou um metal não reluzente
posso ser translúcida como o vento, o ar
assim não reflito, só finjo que penso
finjo que sou espelho e vou me mais lustrar
(uma placa opaca precisa de muito lustro p'ra disfarçar)
mas enfim, parece que me comparo a uma placa
opaca, tosca, rude e ah! sim... torta.
não uma torta doce nem levemente salgada
mas uma torta feia, queimada, rachada, mal-feita
sim, nem ao menos comestível sou...
torta por não ser direita e torta mal-feita
ah, o que diriam meus pais se acordassem?
não, eles também são espelhos, mas
não se refletem mais, já faz tempo...
não tanto tempo quanto as minhas idades, mas
não tão pouco que me fizesse sentir recente
não sei, não dá p'ra acreditar que do perfeito
não veio outro perfeito para contemplar...
nasci englobada aos exageros,
encantada com os devaneios,
aterrorizada com o passageiro
e se pode ser verdade, com o nascer em si
porque nascer é estar condicionado
a uma lista de defeitos e deveres
que só na morte a gente há de se livrar
aí a gente vira coisa bela... aí sente falta
ainda mais quando o espelho fora luxuoso
coisa triste e bonita de se lembrar...
Vasta e farta mesa de laticínios,
Bovinos, caprinos, ovinos.
Um banquete ao Baco deposto
Eis a festança do Reino Explícito e Magno!
Joguem os confetes e as serpentinas
Lancem os acordes aos banjos e violinos
Quero dança, festa, bebida e comida
Sorrisos, gargalhadas e remexidas.
Quero ver o povo cantar,
Sou Rei, sou Extremo, sou Maior
A Estrela-Cadente que veio reinar
Sou Sol, a Lua, Terra e Mar!
Dance, minha gente, sob o crepúsculo
Quero ver as estrelas nascerem
Juntas aos olhos a brilhar
Embebidos e satisfeitos a festejar
Bebam, comam, divirtam-se
Tenho as mais belas moças a servir
Tenho trovadores para cantigar
Há muito para na história se lembrar
Venham, minha gente, hoje é tudo mentira
Hoje a tartaruga lhe servirá bebida
Nesta noite o sol não nasce
Hoje a Lua deu folga para o Astro!
Aproveitem, escondam-se sob meu manto
O Rei lhes protegerá dos pecados
Não haverá sacerdote pronto a culpar
Pelos atos que aqui hão de se ocupar
Não temam, meus aldeões,
Hoje não irão trabalhar
A roça, a banalidade e os cortejos
Hoje não precisam me dar
Sou eu quem lhes oferece
O melhor da nobreza e dos Reis
A bondade da minha pessoa sinistra vem
Por detrás de uma oferenda que dei
Ao mais longínquo destas humanidades
Entidade de distantes maldades
Que as converti às amizades
Onde hoje eu lhes compartilharei.
Vinde a mim as criancinhas!
Pois o melaço do meu âmago darei
E transformarei-o em sorrisos
Dançaremos em ciranda a noite toda
Hoje não me chamem de Rei, mas de Pai
Sois vós criancinhas o melhor futuro
Sois vós criancinhas minha preocupação
Venham, aproximem-se, mulheres
Não temam a rejeição e sujeição
Deixem as modéstias e unam-se como moléstias
À nossa mais vasta e duradoura diversão
Juntem-se ao formigueiro de dentes
Unam-se aos corpos sedentos e famintos
Desfrutem das carnes e dos vinhos
Hoje sois as Mães do Divino!
Desta festa não sobra gente,
Vira bicho e se esconde em instinto
Nesta noite não haverá choro nem reza
Ouvireis gritos e murmúrios simultâneos
Hoje o Rei dará uma festa
Hoje Sodoma irá de se reativar!
Em Orion apostei meus desejos:
Três estrelas e três pedidos
Vontades que tanto as alvejo
Futuro, presente e o ocorrido
A cósmica analogia e a sanidade
As Três Marias Mães-de-Deus
Não me vêm ao caso, por ora
Vejo estrelas um dos meus,
Porém distantes mundo a fora.
Brilhos sinistros e a longevidade.
Essa imensidão que deslumbro
Estão a anos-luz de distância
Nada com mente que não cumpro
A normalidade desta instância.
Sonhos deslavados e a impossibilidade.
Sutis essências essas do ser,
De querer e não fazer nada
Abrir-se ao desconhecido e ter
Uma razão insossa não-provada.
Lunáticos astronautas e a relatividade.
O covil das estrelas vem sendo
As paredes da minha imaginação
Essa tal matéria escura tendo
Como si mesma a indagação.
Finitas teorias e a finalidade.
Pedi àquele cinturão assuntos
Deste e outros mundos distintos
Impossíveis de irem aos untos
Andrômeda e Láctea não-extintos.
Prováveis fins e a animosidade.
por que há lealdade no inalcansável?
por que acredito tanto em utopias?
por quê me sinto tão decadente...
eu queria me estragar com remédios
queria esconder meu rosto no travesseiro
dormir o dia todo, chorar...
minhas palavras valeram pouco
diante da secura e frieza alheia
e do meu nervosismo, descontrole...
tenho caído em tão profundos abismos
que minha mente tem cavado incessantemente
eu sei que dentre mil e um povos
apenas uma pessoa há de me olhar
de ver e de me enxergar...
não quero dizer a ninguém sobre isso
porque ouvir é mais fácil que ver
ninguém há de compreender
a dor
a lágrima
a tristeza
a febre
a desistência
a vontade de correr e se jogar
daqui pra outro planeta
num acidente não-acidental suicidar
é verdade, morrer assim é covardia
mas covardia é a minha querer desistir
é... eu queria deixar de acreditar
que esforços valem a pena a todos
queria sair correndo e gritar: consegui!
mas... é mentira, perdi, eu perdi..
perco todos os dias um pouco
de vida, de juventude, esperança,
de criança, de adolescente, humana..
perco todos os dias um pouco de tudo
tudo que me fora belo e inútil
porque afinal, bem no final, somos iguais
sejamos crianças, adultos, idosos
viramos resto de ossos e pó
restam-nos cabelo, ossos e unhas
e as memórias que se vão...
como desculpa de não remoer tristeza
porque as felicidades se entristecem
assim é como a gente se desfaz
de gente como a gente
que um dia deixou a gente para trás
ainda assim, quero morrer
não me interessa se o meu sorriso
vai virar lágrima e perturbação
não me vem ao caso se a saudade vem
não sou eu quem vai sentir...
eu já a senti por dias e noites
chorei, sonhei, pedi, implorei, jurei
no final estaremos todos juntos, né?
então por que você vem a chorar?
não... chorar é pra surpresas
e morrer não é surpreendente...
todo mundo morre, ainda que pareça
que alguém é indestrutível
suas palavras, suas idéias e fibras
são todas desfeitas pela própria natureza
há quem queira lhe decompôr,
há o que lhe leve com o tempo
e não lhe faça mais que uma plaqueta
poucos são os que entram pra memória
muitos são os que mereciam...
há tantos nomes que deveriam constar
em enciclopédias, fundamentalismos
mas não estão, morreram e só
viraram comida de bicho, pó de caixão
sumiram da atmosfera, uniram-se ao chão
ah, como é triste essa tradição
essa inescapatória contradição
de viver bem para se morrer
mais cedo ou tarde, há de acontecer
não há caminhos nem labirintos
você sabe por passos infinitos
que eles só lhe levam ao mesmo lugar
onde um dia você há de se acabar
você pensa desviar-se do comum
mas o final é apenas um
morremos, sabemos e esquecemos
que nada então valhe a pena fazermos
nada levamos daquilo que buscamos
nada estamos sendo e por nada chamamos
por nomes antigos e convincentes
pena que eles são inférteis sementes
na minha concepção de todo o mundo
porque eu e alguém sabemos ao fundo
como tudo é menos lágrimas que triste
e que nada valhe a pena enquanto existe
é só perder pra deixar de esquecer
é só deixar escapar para poder buscar...
Somos tão inexpressivos
Não conseguimos mostrar valores
Nosso meio é impróprio a isso
Vivemos numa cidade!
A cidade é o meio mais inanimado...
É concreto, frieza, poluição, ruído
É bonita a arte da desconfiguração
E feia o declínio da emoção...
Somos confinados e destinados à rigidez
Filhos do cal e do cimento
Netos do vapor e do carvão
Pais do silício e do plasma...
Somos lixo porque estamos no lixão
Não temos cenário para nossas virtudes
Nascemos, estudamos, trabalhamos e morremos
Às vezes temos nossas diversões
Limitadas à moral e ao juízo comum
Às vezes quebramos a lei e somos presos
Caso contrário, somos assasinados
Às vezes seguimos regras corretamente
E somos pegos pelas costas com um punhal
Às vezes morremos de mortes tolas
E às vezes nós mesmos a procuramos
É horrível pensar que somos assim
Tão mecanizados e feitos de carne, sangue
É péssimo imaginar que nossos ideais
Envolvam cédulas de papel e fichas de metal
É triste saber que nossas metas
São envolvendo "emprego, riqueza e saúde"
Saúde para o quê? Nascemos num belo mundo
Mas tão infectado por nossas mazelas
Nossas luxúrias, gulas, desavenças...
Somos pecados ingênuos e indeterminados
Queríamos ser poupados de tantas dores
Sem ao menos mostrar nossos valores
Se pudéssemos correr pelas montanhas
Para colher pequenos ramalhetes
Às nossas donzelas amadas e queridas
Se pudéssemos pintar quadros com freqüencia,
Se houvessem ainda trovas a serem trovadas
Se as serenatas não fossem piadas,
Ah, tudo seria tão mais belo e gentil...
Veja você consumindo hormônios
Olhe você destruindo neurônios...
Quem é que está sofrendo? E mentindo?
Veja você se matando
Olhge você decaindo
Quem é que está lhe acusando? E rindo?
Se pudéssemos dobrar papel como asas
Poderíamos nos arriscar num penhasco
E quem sabe voar daqui pro inferno
Dependendo do que há de se constar
Ah se eu pudesse fugir de um mosteiro
Para poder lhe encontrar
Deleitar-me em seus braços
Depois de tanto lhe aguardar
Ah se eu pudesse escrever poesias
E então lhe entregar
Fazer delas livro e obra
Valorizá-las, cantá-las, dedicá-las...
Queria que tudo fosse mais bonito
Que as virtudes não fossem compradas
Artificializadas, conquistadas, moldadas
Queria que a gente nascesse assim
Perfeito do jeito que deve ser
Do jeito que o Sei-lá-o-que fez,
Do jeito que deveria ser...
Não, não queria seguir as linhas
Queria ser torta como torta eu nasci
Correr curvas pelas retas
Correr retas pelas curvas
Ranger dentes de alegria
Chorar mágoas de doçura
Queria ser paradoxal à existência
Porque ela vem a ser um fardo
Queria que a gente nascesse falando
E virasse à nossa mãe e dissesse: obrigada!
Mas se soubéssemos ao menos falar assim,
Diríamos qualquer maldizer e choraríamos,
Como de costume...
Porque dói ver a luz da vida
E fede o cheiro da realidade
Ensurdece a música do presente
Mata a sensação de estar vivo
E de estar automaticamente sendo dissolvido
À homogênea carreira humana:
Nascer, estudar, trabalhar, morrer
E às vezes ter uns epicurismos
E não fugir das regras
E não matarás e não roubarás
E não viverás e não existirás
E não seguirás e não ouvirás
A toda baboseira do humano
Ele é como você, burro e ingênuo
Não é ele que te rege, que te protege
É ele que nasce como você
E morre do jeito que você quiser
É você quem faz sua vida
É você quem se ilumina
Você é o acróstico do
"Veja O Céu Estrelado"
Olhe para o céu, veja-o brilhar
Olhe as estrelas, veja-as no céu
É tudo tão bonito acima da fumaça
Tudo tão belo e real, natural
Tudo tão inalcansável, distante...
A grama de ontem é a areia do amanhã...
não me ligue, não me chame
hoje não estou para conversas...
meu humor e meus sorrisos queimaram
numa amargura que chamo desilusão
não me anime, não tente...
eu já sei que não conseguirei
estou procurando um caminho
de me virar e fugir disso
não ajude, não coopere...
eu não quero palavras doces,
não quero colo, nem abraço
quero o que quis e não consegui
não me aperte, não segure...
já estou aprendendo a lidar com isso
consigo agora segurar o choro,
acho que só assim a gente consegue
não diga nada, não murmure...
minha cabeça já doeu tanto por dias,
apareceu-me os miolos a explodir
dividir-se em mil pedaços de caos
não os recolha, não os reponha...
quero manter-me despedaçada,
ter-me a mim mesma como comigo me tenho
do jeito que me quero e me fiz
não tente mudar, não corra trás...
eu já cansei de recorrer,
a caminhada é longa e dispersa,
concorrida e apressada, animalesca
não me apoie, não me convença...
tenho certeza de que não há volta
e que a ampulheta torna-se ao avesso
e recomeça o círculo vicioso
não me conforte, não me abstenha...
quero pular de todos os prédios,
voar em todos os céus e nadar os mares
faça-me de preso e me matará
não me compreenda, não me ouça...
eu não tenho palavras que vão interessar
meus gestos são cansados e desgastados
não me venha com essa de que irá gostar
não se aproxime, não comece...
eu não quero mais lembrar de nada
quero esquecer o tudo e relembrar o pouco
o tanto suficiente para me alegrar
não me anime, não me remexa...
quanto mais me mexe, mais me estrago
tenho-me como Molotov pronto a explodir
não me assassine as forças...
não me desatine, não me tenha,
não me diga, não me fale, não tente,
não imagine, não sonhe, não...
pare, deixe-me concluir o casulo
dê-me um tempo de contorná-lo
passou o tempo das borboletas e mariposas
volto-me às hortaliças remoídas
a lagarta voltou aos humanos queimar.
