Quinta-feira, 10 de abril de 2008
Hoje quando eu estava voltando da faculdade, estava morrendo de cólica.
Foi uma dor tão forte que chegou a ser alucinógena. Sim, eu estava
caminhando com passos curtos e não muito distantes do chão, para não
contrair mais o meu útero e doer. A Avenida Paulista está em obras
desde que cheguei aqui em São Paulo... Tenho que desviar e prolongar
meu caminho com mais alguns pequenos metros. Nesses espaços apertados,
sempre vejo pessoas indo e vindo sem parar, todas distraídas ou
perdidas em seus próprios afazeres. Raramente alguém presta atenção no
que você diz ou faz, mesmo que você berre, mesmo que diga algo horrível.
Hoje, como queria desviar minha mente para fingir que os 20 minutos de
caminhada iriam ser mais rápidos, comecei a divagar. Bem, na verdade,
só consegui fazer isso lá pelo final da caminhada, após rir comigo
mesma de um anunciante de Lan House com um papel de 'Free Hugs' na mão.
Foi descendo as alamedas, já perto do pensionato, que uma música surgiu
nos meus ouvidos, sem nem eu estar portando fones ou um mp3 player.
Eu olhava para pessoas, com sinestesia, com apuração das cores. Elas
estavam mais vívidas, o stress se tornou graça e toda aquela gente
subindo e descendo fazia parte de um musical. O homem da pasta com cara
irritada tinha pressa, porque o chefe era neurótico e ele, paranóico e
perfeccionista. A mulher gordinha e baixinha era escandalosa e
piadista. O negro de roupas largas era um líder do gueto. Todo mundo
ganhou um compasso, todo mundo ganhou uma música e um rítmo, um papel
na peça, uma peça no quebra-cabeças.
Eu costumo perder meu tempo humanizando pedras e perder humanos recolhendo pedras.

Comments
Poxa, vc me deixou de boca aberta, vi seus textos no site sorocult (do qual também faço parte) e entrei no seu blog só para ficar ainda mais admirado!! você tem um modo de escrever encantador, enigmático e simplesmente lindo!!! adorei, parabéns...