Parte triste, parte louca
Estou tão infeliz, meu deus!
Tão infeliz que poderia
Chorar por todo o sempre
Sem sequer poder respirar
Aí, meu deus, iría me matar!
Sinto-me tão descontente,
Vejo-me tão decadente
Até quando vai, meu deus,
Isso durar?
Tem alguém aí de cima?
Há alguém sorrindo em som?
Quem é que mandou-me esta ordem?
De denegrir-me viciosamente
Incansável e eloqüente...
O que é que se passa?
Por que é que não me avisaram?
Assim eu poderia me recolher
E pedir perdão pelos sorrisos,
Pelos risos, por ter sido feliz!
Dessem-me ao menos uma chance
De reconhecer outra vez ser só
Deixassem-me provar as lágrimas
E de novo, sentir os músculos
Contraírem, umidecerem, caírem...
Foi injusto terem me dado
Esse golpe tão certeiro
Depois de muito soluçar,
Restou-me um pedaço de lençol
Onde enrolei-me
Ali, lugar que não quis deixar
Brotei-me junto do colchão
Senão mais duro que o próprio chão
Frio como a relva da manhã
Silente como as sirenes
Dá, meu deus, uma chance de
Saber como me redimir...
Perdão pelas minhas zombarias,
Pelos meus pulos de alegria,
Pelas festas, pelas canções,
Perdoa-me por ter tido coragem,
Desculpa-me por ter tido vontade
Redima-me por ter tido vantagem
Justifica-me por ter sido feliz!
E é tudo tão maluco quando a gente
Perde o chão de flores e sementes
P'ra pisar no calcário chão de pedra
Pontiagudo, reluzente, vasto...
Ah, amplas pradarias de solidão
Oh, brilhante lua de verão...
Por que é que não me inspira?
Por que é que faz-me sofrer em vão?...
