Dias
Nesses dias estranhos,
Eu não acordo com você no celular
Eu não vou à escola de manhã,
Nem sento no fundo, ao seu lado
Nesses dias estranhos,
Você e eu somos também estranhos
Nesses dias urgentes,
Eu não acordo por mim mesma,
Nem vejo o céu, nem o fim da tarde
Não vejo o mar, nem vejo rios
Não sinto fome, só sinto frio
Nesses dias urgentes,
Você e eu estamos tão distantes
Nesses dias loucos,
Eu sou uma marionete do tempo,
As trilhas dos meus passos somem
E se misturam a mil pegadas
Não faço diferença nessa selva
Nem faria, se desaparecesse
Nesses dias loucos,
Você e eu nos dispersamos
Nesses dias chuvosos,
Eu sou mais um vulto na cidade,
Não espero nada de ninguém
Nem sinto que eu o vou ver
Porque não faz sentido sentir
Não faz idéia do quanto falta
Nesses dias chuvosos,
Você e eu estamos a nos procurar
É nesses dias em que nos afastamos
Que o tempo corre lento e imaculado
Nada foge dos seus eixos, nada passa
Só se empurra e releva e se entrega
Não adianta o choro nem a vela
Não são as preces, são os fatos
Esperar nada mais é que um fado
Mas espera, como todo dia vem a lua
Tudo há de passar, de se deixar passar
E nós estaremos novamente juntos
E nossos dedos procurarão uns aos outros
E atordoados, eles colidirão e procurarão espaços
Onde, em enlaços, juntarão, apertarão
Concretizarão nossa ída e vinda novamente
Vamos fingir que nada vai começar de novo...
É nesse espiral desatento que o destino finge ser
Que nossas almas se unem e se separam
Como um destacar de pele sobre ferida
E sangra, sangra pouco, mas ainda mancha em rubro
Que é p'ra marcar que existe,
Mas que logo irá se deixar levar
