Diante dela
Tão estranha e próxima,
Tão sublime e assombrosa,
Eis que me surge o medo
De engolirem-me as trevas
Ora tão bela e mística,
Agora tão crua e verídica
Eis que vem-me com dor
Num misto de espanto e horror
Eis que as coisas mais lindas
Findam num caminho, só
Sozinhas partem-se a fio,
Solitárias compartilham o pó
A poeira que resta dos anos
Da vasta trilha entretida
Num sádico rítmo de cair
E levantar e logo tudo acabar
Do meu interim ressoou hoje
Uma exclamação confusa, duvidosa
Eu, que queria tanto encontrar,
Perdi-me na pergunta sem resposta
Eu, que me calo e consinto
Na ignorância de ser o que sou
Na impertinência de respirar,
Na insignificância de existir
[e se expurgar.
Eu, que nas mais gélidas noites
Persegui-me por entre os sonhos
Buscando-me resgatar, por mim só
Eis que me prendo, sim, em um nó
O elo das incertezas, fraquezas
A corrente que prende as dúvidas
Os cheiros e cores que não se sentem
Mais vão ficar que se deixar levar
Partem de ti todas as palavras
Dignas de serem lembranças recordadas
Vêm de ti um resto de chama
Para que a vida, realmente, mereça
[aquele que a ama.
Que é na morte que todo passageiro
Deixa de viajar por puro prazer
Sente as dores dos infortúnios,
A escuridão dos que não enxergam,
A loucura dos que não consentem,
O desespero dos que não refletem,
A angústia dos que não recebem,
A vingança dos que perdem,
A desilusão dos que morrer, não querem.
