Descartado
Eu não sinto as palavras chegarem à boca
Eu não sinto o deleite, o enfeite que
Outro dia se desfazia em gramas tão soltas...
De repente, tudo se entorta como espiral
E o passado se confunde com o presente
É uma escadaria, cada degrau, meu mau
É uma avalanche de sentimentos frustrados
De olhares atravessados, desaprovados, espertos
Uma avalanche de gelo que derrete em choro
Ah, enferrujam as belas estátuas metálicas
O férreo dilema do ego se faz líquido
Oh, como aqueles dias podiam voltar!
Poeta em mim que dilacera, hoje morre
Move, delibera, liberta um eu que já havia
Deixado de ser parte do meu ser, de haver
Eu não dou a mínima para mais nada,
Machucar é relativo às palavras que soam
Mas elas soam sem sentido, tão ásperas...
Não, eu pensava que as geografias difericem
Que a maciez se encontrasse entre formigas
Mas elas são tantas que pisoteiam-se num cubo
É, ainda que eu tenha me confeccionado
Uma coroa de espinhos de sentimentos atentos
Eles são meros, singelos e mornos
Um aborto à toda essa minha desvariedade
Do desvario dos meus olhos fundiram-se rios
Cada gota uma palavra, cada palavra um lamento
Eu lamento, desculpo-me e remendo
Mas não há como remendar o que já se furou mais
E mais e mais, eu atento, renova jamais...
