Aquoário
Nisso, eu parei e pensei:
Qu'é que vamos ter hoje?
Nada, nem adianta adiantar
Tentar criar na cabeça
Uma previsão do imprevisível
Do instável mais que visível
Hoje o dia há de se acabar
E se acaba belo entre gotas
A chuva que lava a luz e
Traz as trevas, a lua e estrelas
Manda embora a lividez etérea
E traz de volta o manto negro
Mas vem de volta o dia
E ilumina, num rasgo de cetim
Aquele tão profundo abismo inverso
Onde piscam mil olhos distantes
Rasga e ilumina nossas casas
Adentra nossas janelas e nos assombram
Em uis e ais, clamamos a superstição
Temos medo e nos afetamos
Mas, em realidade, estamos bem
Não é que as gotas se colem
Às vidraças da janela a toa:
Juntam-se elas, unem-se uma a uma
E escorrem, completas, cachoeira
Escorregam casadas, unem-se a outras
Amam-se umas as outras e se entregam
Ao término, à madeira da divisa
E voltam a ser resto de água
Viram poça, viram nada
Evaporam e são nuvens!
Oh, tão belo trajeto desta vida...
Mas não é? Se pudéssemos então
Escolher o que fazer para hoje
Eu escolheria ser chuva, ser água
Queria deixar de sobrevoar as miudezas
E unir-me a elas, líquida ou sólida
Sendo neve ou garoa, tempestade
Vou lá, chego lá, junto-me ali, acolá
E me reluzo nos raios do sol
Esquento-me nessa quentura amarela
De repente, vejo-me tão bela
Desfazer-me invisível, desintegrar-me
Perdendo-me em sentidos até finalmente
Voltar!
Voltara, voltara às nuvens
Às etéreas componentes refratárias
Onde o sol faz seus afrescos fugazes
Nos crepúsculos mais belos e úmidos
Porque a Terra gira e traz de volta
A noite, o tão belo manto purpurino
Traz de novo e vai embora, eis o ciclo
